Entrevista

ENTREVISTA

Fabrício Bolina *
Professor pesquisador do Instituto Tecnológico itt Performance na UNISINOS, coordenador do Laboratório de Segurança ao Incêndio, professor do curso de Engenharia Civil e Arquitetura da UNISINOS e coordenador dos cursos de pós-graduação em (i) Segurança ao Incêndio em Edificações e (ii) Projeto de Estruturas para Edifícios, ambos na UNISINOS

Professor, há quanto tempo existe o Instituto Tecnológico em Desempenho e Construção Civil (itt Performance)?

Sediado na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, o Instituto Tecnológico em Desempenho para a Construção Civil existe desde 2014 e foi criado no âmbito da norma de desempenho das edificações NBR 15575. O instituto nasceu com uma característica multidisciplinar, visando atender diferentes matérias no campo da construção civil. Dentre vários laboratórios, como o de acústica e segurança estrutural, desenvolveu-se também o laboratório de segurança ao incêndio. Hoje somos acreditados pelo INMETRO e estamos colhendo o fruto de um trabalho muito sério desenvolvido ao longo de todos estes anos. Claro, ainda somos jovens, mas queremos avançar e contribuir cada vez mais com o setor brasileiro e a formação profissional.

Qual o papel da proteção passiva na melhoria da segurança contra incêndio no cenário brasileiro e que paralelo o senhor pode traçar em relação aos países desenvolvidos?

O sistema normativo brasileiro evoluiu muito nos últimos anos, principalmente inspirado pelos resultados de esforços internacionais (ou seja, normas regulamentadoras estrangeiras). Essa disposição para elaboração das normas no Brasil provém, além do trabalho formidável de profissionais engajados, da consequência do aumento da preocupação e da necessidade de engenheiros e arquitetos, da busca e do fomento à formação profissional dentro das universidades (apesar de ainda incipiente e aquém do nível ideal) e da disposição de bons fornecedores em qualificar os seus produtos. Sinto que estamos no caminho correto. Na comparação com épocas anteriores, temos registrado notórios sinais de avanço. Mesmo em tempo de pandemia, um número infindável de lives e webinários relacionados à segurança contra incêndio revela que mais pessoas tem se interessado pelo assunto e estão buscando formação na área. Os fornecedores têm igualmente sentido essa demanda, à medida em que os profissionais começam a questioná-los sobre o atendimento aos requisitos normativos e às instruções técnicas. A quantidade de materiais de acabamento e revestimento disponíveis, das mais variadas composições, tem gerado incertezas por parte dos projetistas, que passam a exigir dos fornecedores comprovações de desempenho. Apesar deste cenário não ocorrer em muitos Estados brasileiros e ainda se tratar de um movimento mais regional, ele sem dúvida enaltece o fato de que estamos avançando e progredindo. Ainda estamos longe de um nível europeu, mas não estamos estagnados, somos ambiciosos, há muitos profissionais sérios e interessados em fomentar o setor – e isso é um bom indicativo em termos de progresso.

Os laboratórios de fogo deveriam servir como espaços para o desenvolvimento e acúmulo de conhecimentos sobre segurança contra incêndio? Em sua opinião, como isso poderia retornar de forma positiva à sociedade?

O laboratório de segurança ao incêndio do itt Performance tem na pesquisa um de seus mais importantes pilares. Sem formação profissional e sem repasse de conhecimento agregado, a evolução à qual me referi na resposta à pergunta anterior não acontece. Diversos alunos dos cursos de graduação e pós-graduação têm buscado o estudo de assuntos correlatos à segurança a incêndios e usado o nosso laboratório para desenvolvimento de pesquisas. Temos igualmente presenciado uma aproximação muito sadia entre empresas e universidades. Há companhias que buscam realizar o desenvolvimento de seus produtos no médio prazo e acabam apoiando pesquisas de alunos na graduação e na pós-graduação. Colhemos resultados extraordinários quando juntamos estes dois atores. Ainda assim, isso é ainda incipiente no Brasil. Muitas empresas nacionais não enxergam que investir em pesquisa é um caminho nobre para o desenvolvimento de seus próprios produtos. Na verdade, são poucas as empresas que cogitam esta possibilidade. Mas ela é válida e real e traz, sob diversas perspectivas, muitos resultados à sociedade.

Como a Unisinos está preparando seus profissionais para serem valorizados num mercado ainda tão embrionário no Brasil? Os alunos têm conseguido se inserir no mercado? Se não adequadamente, o que falta?

O curso de Engenharia Civil e Arquitetura da Unisinos conta com uma disciplina obrigatória de segurança ao incêndio. É uma disciplina de 4 créditos, na qual os alunos aprendem noções de segurança ao incêndio e realizam projetos (chuveiros automáticos, saídas de emergência etc.) como atividades de avaliação. A Unisinos tem preparado estes profissionais para o mercado e já percebemos que muitos recém-formados tem concentrado sua área de atuação nesta matéria. Um fator que contribui bastante para isso é a busca de grandes construtoras em desenvolver projetos específicos de segurança ao incêndio. No Estado do Rio Grande do Sul, vivemos um cenário que seria inimaginável há alguns anos e algumas construtoras têm buscado atender a segurança ao incêndio no princípio do projeto, juntamente com a concepção arquitetônica. Isso faz eclodir no mercado a necessidade de profissionais especialistas na área. Temos, portanto, presenciado um cenário muito animador no qual a segurança ao incêndio tem se tornado uma disciplina de projeto, assim como o estrutural, o elétrico, o arquitetônico. Isto abre portas para o mercado de trabalho, fazendo com que muitos alunos recém-formados encontrem na segurança ao incêndio um setorpara formação de carreira. Nós, inclusive, já temos vários escritórios concentrados exclusivamente em projetos de segurança ao incêndio. 

O curso de especialização de segurança contra incêndio que a Unisinos organiza contempla temas sobre proteção passiva que podem ajudar os alunos a se projetarem de forma mais efetiva? De que forma e como isso acontece na prática?

O nosso curso de especialização está na 5ª edição e já formamos mais de 87 especialistas. Temos realizado um trabalho muito bonito e buscado compor o quadro docente do curso com os maiores especialistas do Brasil. A ABPP, inclusive, tem contribuído na formação dos profissionais deste curso. A disciplina de proteção passiva é fundamentalmente composta pelos profissionais estruturantes da ABPP. Temos um módulo no qual a ABPP realiza o treinamento dos alunos para identificar corretamente a necessidade de proteção passiva ainda em projeto, com requisitos a serem atendidos, ensaios, especificações, e finalizando a aula com uma visita técnica em edificações que tiveram tais requisitos plenamente incorporados. É uma parceria muito sadia entre o curso de especialização em Segurança ao Incêndio e a ABPP. Precisamos de mais parcerias desse âmbito no Brasil. É uma contribuição mútua e os associados da ABPP tem 10% de desconto no curso.

O itt Performance está aberto à colaboração com iniciativas privadas para o desenvolvimento de estudos e novas tecnologias? Como isso pode ser explorado pelos associados da ABPP?

O itt Performance está atento às necessidades das empresas. Diversos fornecedores nos procuram para conceber um produto seguro e que respeite as exigências normativas. É o que chamamos de consultoria técnica. As companhias contam com a opinião dos especialistas do instituto para desenvolvimentos em médio e longo prazo de elementos de segurança ao incêndio e testes de materiais inovadores, entre outros. Não realizamos apenas ensaios, nós auxiliamos empresas e fornecedores na melhoria de seus produtos. A parceria que o itt Performance possui com a ABPP é antiga e muito sólida. Contamos com o apoio da ABPP em necessidades específicas para trocas técnicas em termos de boas práticas, desenvolvimento de materiais técnicos de formação e visitas técnicas, entre outras atividades. Os sócios da ABPP podem ainda tirar proveito desta colaboração mútua para identificar estratégias para desenvolvimento de seus produtos.  

Há algo mais que gostaria de dizer sobre proteção passiva, sobre o itt Performance e sobre a sua visão do futuro da proteção passiva e do trabalho do itt no Brasil?

Enxergamos com bons olhos o que está acontecendo com o Brasil. Estamos vivenciando uma transição interessante. Como professor de cursos de graduação e pós-graduação, percebo que a cada ano aumenta o número de profissionais que almejam capacitação em segurança ao incêndio. Isto é um bom sinal, pois o ensino e a formação são sementes necessárias. No entanto, colheremos bons frutos apenas se cuidarmos e ficarmos atentos a este princípio. Precisamos capacitar e formar adequadamente estes profissionais para o médio e longo prazo a fim de termos avanços consolidados. O itt Performance tem investido nesse tipo de estratégia. Além de um laboratório de certificação e avaliação de produtos, nosso quadro técnico de professores mestres e doutores busca também incentivar a formação. Trazemos os alunos para aulas práticas para vivenciarem as boas técnicas, o desempenho dos materiais, os equipamentos disponíveis para avaliação dos sistemas, entre outros aspectos. Os alunos precisam enxergar a grande capacidade laboratorial que temos no Brasil e tirar proveito disso. Somente dessa forma seremos capazes de incentivar as empresas e os fornecedores sérios a incluir em suas premissas de desenvolvimento de produtos a preservação da vida no ato de um incêndio. Não podemos mais aceitar que desastres se repitam. Compete a nós, profissionais do setor, entendermos esta nossa responsabilidade perante a sociedade. 

* Fabrício Bolina é Engenheiro Civil pela PUCRS com período sanduíche na ENISE/França. É Mestre em Tecnologia da Arquitetura pela UNISINOS, Doutorando em Engenharia Civil pela UNISINOS e Engenharia de Segurança ao Incêndio na Universidade de Coimbra/Portugal. Professor pesquisador do Instituto Tecnológico itt Performance na UNISINOS, coordena o Laboratório de Segurança ao Incêndio e é professor do curso de Engenharia Civil e Arquitetura da UNISINOS. Bolina também coordena os cursos de pós-graduação em (i) Segurança ao Incêndio em Edificações e (ii) Projeto de Estruturas para Edifícios, ambos na UNISINOS.